sábado, 26 de setembro de 2009

Meu filme , minha vida, livro aberto.

Eu devia ter uns 9 anos. Tinha acabado de ver algum filme com o Van Damme. Era tipo "Leão Branco", "Dragão Negro", enfim... qualquer filme cujo título seguia a fórmula "nome de animal + cor + subtítulo contendo a palavra KICKBOXE. Lembro de ter colocado um calção preto e saído chutando tudo e todos pela casa. Incansável. Queria ser igual o filme. Queria ter um romance com um coreano qualquer e me envolver em um triângulo amoroso bizarro, que me colocaria numa sinuca de bico da qual a única solução era sair QUEBRANDO A CARA DE TODO MUNDO. Fui dormir nesse dia, sem ter espancado ninguém. "Droga" - pensei.

Tem sido assim. Cada vez mais. Os filmes, sempre eles, servindo de matriz para os meus dias.

Eu tenho um problema. Na verdade, vários, mas o problema em questão é que eu quero sempre transformar acontecimentos convencionais em eventos cinematográficos, aquela velha história de "ter coisas pra contar". Mas isso cansa. E me deixa desapontada, quando eu não consigo (momento comum pacas). Hoje em dia me pego gostando cada vez menos dos documentários, pulando de cabeça num mundo ficções, de aventuras. De cabeça mesmo. Os coadjuvantes vem e vão, e eu gosto muito de contracenar. Uns vem e nem se vão. Ficam por aí, até que surja uma nova cena para eles estrelarem. É, passei a encarar os dias como se fossem cenas, as horas como se fossem takes, os momentos como se fossem quadros. E não é tão legal quanto parece. Já já explico o porquê.

É que assim eu acabo deixando passar despercebidos momentos não-cinematográficos, mas que, nem por isso deixam de ser bonitos. Pra quê ficar forçando? Um simples beijo é substituído por um amasso na mais torrencial das chuvas, numa parada de ônibus aleatória na Av. Brasil. Um pedido de desculpas vira um EP. Enfim, é uma pressão infinita, pra extrair de todo e qualquer momento o mais intenso dos sentimentos. Cansativo. Suspeito que isso seja culpa das músicas, da abordagem que eu uso nos meus relatos, desse super-realismo-exagerado.

Mas, mesmo assim, eu continuo. Firme e forte. Diretora, produtora executiva e roteirista do filme da minha própria vida. Nada mais justo (e rentável) do que dar a ele um andamento coeso, e cativante. Procuro sempre ser cativante. E isso também cansa.

Mesmo reclamando de tudo isso, prefiro permanecer assim. Prefiro distribuir VUADÊRAS e PONTA-PÉS por aí, trajando um belíssimo calção PERUSSO do que ser coadjuvante de uma história que está totalmente fora do meu controle, uma mera espectadora, ausente, impotente. Posso não controlar, mas quero protagonizar isso tudo, de cabo a rabo. E ninguém vai tirar de mim esse papel, afinal, O FILME É MEU, PORRA.
Itálico
Me encontro em um momento de recomeço. Reborn. Meu filme foi documentário por muito tempo. Chega.

Hoje sou ficção. E prefiro permanecer assim, protagonizando um filme sem fim, dirigindo coadjuvantes aleatórios e invariavelmente RICOS, COMPLEXOS, PROFUNDOS.

É. Eu cresci. E te perdendo eu cresci tanto que hoje tenho certeza de que não quero mais te encontrar :)

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